Romi-Isetta 70 anos: conheça o carro de uma porta só pioneiro na produção em série no Brasil

Romi-Isetta 70 anos: conheça o carro de uma porta só pioneiro na produção em série no Brasil

13/09/2026 às 04:30 Vista: 1 Vez(es)


Romi-Isetta 70 anos: conheça carro de uma porta pioneiro na produção em série no Brasil No momento em que a indústria automotiva mira o futuro, acelera rumo à eletrificação e vê a 'invasão' das montadoras chinesas, Santa Bárbara d'Oeste (SP) enxerga pelo retrovisor a estrada que pavimentou o caminho das fábricas de automóveis no país. Neste mês, o Romi-Isetta, modelo pioneiro da produção de carros de passeio em série no Brasil completa 70 anos. Apesar do 'fracasso' como produto, pela curta trajetória comercial, o automóvel foi um marco industrial bem-sucedido e deixou legado para o setor. Com mais de 70% do seu peso em peças fabricadas no Brasil, a indústria Romi, que antes de 1956 produzia máquinas agrícolas no interior paulista, lançou o compacto com porta única dianteira que marcou o início da indústria nacional automotiva. (Veja infográfico abaixo) 🔩Antes, ou os automóveis eram importados ou montados a partir de um modelo conhecido como CKD, em que peças são importadas e o veículo montado no Brasil. A modalidade existe até hoje. 📲 Siga o g1 Piracicaba no Instagram A produção do Romi-Isetta durou até 1961 e, no período, foram lançadas apenas cerca de 3 mil unidades no mercado - hoje, os que restaram são itens de colecionador, e participaram de encontros, como os deste mês na terra natal do carro, para celebrar a paixão. (leia mais abaixo) Após 62 anos, Romi-Isetta ainda gera visibilidade a Santa Bárbara; descubra a história Protótipo de 'carro voador' brasileiro conclui etapa de testes de voo pairado Colecionador 'garimpa' Romi-Isettas Romi-Isetta tem uma única porta dianteira Fundação Romi 🏭 Marco industrial O idealizador da primeira montadora em série brasileira foi o paulista Américo Emílio Romi, dono da Romi. Ele se antecipou às grandes multinacionais que, mais tarde, a partir da década de 1960, começaram a se instalar no país, como General Motors, Volkswagen e Ford, por exemplo. “Emílio Romi era filho de imigrante italiano, teve oportunidade de estudar na Itália, serviu à guerra e trabalhou em empresas italianas. Seu enteado, Carlos Chiti, lendo publicação em uma revista, soube que na Itália era fabricado o Isetta. E ele foi até lá e conseguiu autorização para que o carro fosse feito em Santa Bárbara do D'Oeste”, conta Antonio Carlos Angolini, idealizador do arquivo da Fundação Romi, que hoje, aposentado, mantém vivo o legado da extinta Romi. Indústrias Romi S.A, fundada em 1930 em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo, por Américo Emílio Romi Fundação Romi/Arquivo Nos anos de 1950, o "Brasil ainda era um país bastante agrícola", lembra Eugênio Guimarães Chiti, membro do Conselho da Fundação Romi. "Mas, já começava a ter um processo de industrialização. Tinha em Santa Bárbara d'Oeste a Romi, que fabricava máquinas. Em 1956, o Isetta, já estava sendo fabricado localmente, no Brasil. Sobre a capacidade industrial da empresa Romi para viabilizar o projeto naquela época, o professor e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mário Sacomano, explica que a Romi "era uma empresa altamente especializada em máquinas-ferramenta e implementos agrícolas, segmentos que exigiam grande precisão mecânica. Criado na Itália, o carro Romi-Isetta produzido pela ISO Automotoveicoli Fundação Romi/Arquivo/Reprodução Segundo o pesquisador, essas capacidades significavam que a empresa já dominava tecnologias fundamentais para fabricar componentes metálicos complexos. Essa foi a credencial para ser a pioneira na indústria automotiva nacional "A Romi chegou primeiro porque já possuía capacidade industrial instalada, competência metalúrgica e um empreendedor disposto a assumir riscos antes da consolidação da indústria automobilística brasileira fomentada por JK [Juscelino Kubitschek]", disse. Emílio Romi a bordo do Romi-Isetta na linha de montagem do automóvel Fundação Romi Portanto, o modelo que a Romi instalou no Brasil é o legado da montadora até hoje para o setor: estrutura industrial com uma rede de fornecedores locais, mão de obra especializada e capacidade de nacionalização e desenvolvimento de componentes. (entenda abaixo) 📌 Transformação de Santa Bárbara d'Oeste A base técnica para colocar a linha de montagem em funcionamento já existiam em Santa Bárbara d'Oeste por meio de um importante parque metalúrgico ligado, na época, ao setor agrícola. " A fabricação de tornos, fresadoras, implementos e máquinas exigia trabalhadores altamente qualificados. Essas competências são muito próximas das exigidas pela indústria automobilística", explicou Sacomano. Infográfico: Saiba mais sobre o Romi-Isetta, primeiro carro produzido em série no Brasil. arte/g1 O pesquisador avalia que embora a produção da Romi-Isetta tenha sido relativamente pequena, seu impacto simbólico e econômico foi enorme, com fortalecimento da cadeia metalúrgica, ampliação do emprego industrial qualificado e reforço da identidade industrial da cidade, que antes era fortemente ligada à agricultura e ao meio rural. Unidade número 001 do Romi-Isetta deixou a linha de montagem da Romi em Santa Bárbara d’Oeste em 30 de junho de 1956 — antes mesmo, portanto, de qualquer iniciativa prática oficial para estímulo à produção nacional de veículos pelo Grupo Executivo da Indústria Automobilística. Fundação Romi/Arquivo Plano de Metas e a política JK A consolidação do setor automotivo no Brasil passou de forma decisiva pela política desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubitschek e pelo Plano de Metas, impulsionados pelo lema "50 anos em 5". A criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) estabeleceu critérios que acabaram por direcionar os rumos do mercado. Presidente Juscelino Kubitschek, com a bandeira na mão, entra em Brasília à frente da Caravana de Integração Nacional em um romi-isetta Fundação Romi/Arquivo A respeito do não reconhecimento oficial do Romi-Isetta como o "primeiro carro nacional" sob o pretexto da porta única frontal, Sacomano analisa as motivações políticas da época por trás do debate. Segundo ele, há documentos que mostram amplos lobbies de empresas multinacionais no governo de JK." "O governo JK estava estruturando uma política industrial voltada para atrair grandes montadoras internacionais como Volkswagen, Ford, General Motors, Willys e Mercedes-Benz. Reconhecer oficialmente a Romi-Isetta como o primeiro automóvel nacional poderia enfraquecer simbolicamente a narrativa de que o Brasil estava inaugurando sua indústria automobilística graças ao Plano de Metas." Caravana pela Rua Xavier de Toledo em São Paulo. O lançamento oficial do Romi-Isetta ocorre em São Paulo em 5 de setembro de 1956 Fundação Romi 🚗O título de 1º carro produzido em série no Brasil acabou ficando, oficialmente, com a DKW-Vemag Universal (Vemaguet), que atendia aos critérios de duas portas e quatro lugares estabelecidos pelo governo. Ele foi lançado dois meses depois do Romi-Isetta, com 54% do peso em peças nacionais. A marca DKW era estrangeira, produzia no Brasil sob licença veículos desenvolvidos pela alemã Auto Union, então proprietária da DKW. O plano de metas priorizou o ABC Paulista e ainda segundo Sacomano "um modelo que favorecia empresas com enorme capacidade de investimento, com maior participação do ABC Paulista, em detrimento de iniciativas pioneiras do interior", destacou. Duas unidades do Romi-Isetta ficam na Fundação Romi, em Santa Bárbara d'Oeste, atualmente Thainara Cabral Paixão de colecionador O colecionador Flavio Fernandes diz que a busca pela Romi-Isetta surgiu no momento em que ele e a esposa procuravam um carro que trouxesse memórias. O exemplar do veículo foi encontrado em um local atípico, um galinheiro. “Nós queríamos alguma coisa que fosse diferente de só um fusca reformado, ou uma Kombi rebaixada. A gente queira alguma coisa que tivesse memória do antigo automobilismo do Brasil. E aí começamos achando uma Romi-Isetta real, 1957, pendurado num galinheiro”, diz Ele contou que está desde 2018, montando esse ‘Romi’ e que está quase pronto. "Mas carro antigo é assim, sempre está quase pronto”, afirma o colecionador. Flávio e a esposa estiveram no Encontro de Romi-Isettas 2026, que reuniu os fãs do carro no último dia 5 de setembro, data do aniversário de 70 anos do lançamento do modelo, na sede da Fundação Romi, em Santa Barbara d’Oeste. Flávio conta que a paixão pelo carro passou para novas gerações de sua família e então surgiu a ideia de encomendar uma réplica. “No meio do caminho surgiu a possibilidade de fazer isso para o meu netinho ficar hipnotizado também. Eu estou tentando fazer ele ficar hipnotizado a gostar de carro antigo e ele já ficou doido com isso. É uma réplica de nosso carro, só que com motor elétrico e com controle remoto”, conta Fernandes. 'TBT': Romi-Isetta completa 70 anos em Santa Bárbara d’Oeste, berço do carro no Brasil Futuro da indústria O professor da UFSCar conclui que apesar de décadas de avanço da produção industrial automotiva no Brasil, o cenário atual é de perda da capacidade nacional de desenvolver, produzir e vender carros. "A trajetória da Romi ajuda a entender um dilema recorrente da industrialização brasileira: como equilibrar a atração de investimento estrangeiro com o fortalecimento das empresas nacionais", disse. Para o economista José Eduardo Roselino, especialista em ascensão geopolítica e tecnológica da China, a indústria automotiva vive uma transformação sem precedentes, sobretudo com 'invasão' de montadoras e produtos chineses. "Por 100 anos a indústria automobilística só tinha inovações incrementais, pequenos aperfeiçoamentos que não mudavam a estrutura do automóvel. Isso está mudando agora. Estamos passando por uma transformação ligada à descarbonização e à transição energética, com veículos híbridos, híbridos plug-in, elétricos e outras novas tecnologias surgindo", disse em entrevista ao g1 Campinas em julho. (leia no link abaixo) O avanço das montadoras chinesas está ligado ao domínio de tecnologias como software, semicondutores e sistemas eletrônicos. Virada de chave: carros elétricos e montadoras chinesas redesenham a indústria automotiva 'Efeito China': mais 4 marcas chinesas desembarcam no Brasil Eugênio Guimarães Chiti, membro do conselho da Fundação Romi em Santa Bárbara Reprodução/EPTV VÍDEOS: tudo sobre Piracicaba e região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Piracicaba VIA: g1 > Carros

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